A disputa pelo controle da Groenlândia pode virar conflito? Entenda


Ao declarar suas intenções sobre o território de outro membro da Otan e ameaçar tarifas para forçar os países europeus à submissão, o governo Trump acertou em cheio o coração da aliança militar de 77 anos.

Líderes europeus, que há muito tempo têm evitado confrontar Trump, reagiram de forma incomumente firme no fim de semana, condenando a ameaça de tarifas e reafirmando seu apoio à Dinamarca.

“As ameaças de tarifas minam as relações transatlânticas e acarretam o risco de uma perigosa espiral descendente”, disseram Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Países Baixos, Noruega, Suécia e Reino Unido em um comunicado conjunto no domingo (18).

Na semana passada, países europeus enviaram um pequeno número de militares para a Groenlândia para participar de exercícios conjuntos com a Dinamarca.

Embora não seja necessariamente incomum que países da Otan enviem recursos militares para exercícios na Groenlândia, o momento escolhido representa uma demonstração significativa de apoio à Dinamarca e ressalta as tensões entre os Estados Unidos e a Europa.

Trump, por sua vez, alertou em uma postagem no Truth Social que o envio de tropas representava uma “situação muito perigosa para a Segurança, Proteção e Sobrevivência do nosso Planeta.”

Historicamente, qual a presença dos EUA na Groenlândia?

Os Estados Unidos já possuem uma base de segurança na Groenlândia, um legado da Guerra Fria, quando a proximidade do território com a Rússia o tornava um posto de monitoramento essencial em caso de ataque com mísseis.

Os Estados Unidos assinaram um acordo de defesa com a Dinamarca em 1951, permitindo a instalação de tropas em uma base militar que ainda é utilizada, embora em escala muito menor.

Antes disso, os EUA tentaram várias vezes comprar a Groenlândia, mais recentemente em 1946.

Os dois países mantêm há muito tempo uma relação próxima e “uma boa base para fazer negócios”, segundo Christian Keldsen, CEO da Greenland Business Association.

“Não há barreiras para investimentos americanos em energia, mineração, turismo e outras áreas na Groenlândia”, disse ele à CNN.

O que a população da Groenlândia pensa sobre os planos de Trump?

Os planos de Trump são amplamente impopulares na Groenlândia. Cerca de 5.000 manifestantes — uma proporção considerável da população do território — compareceram a Nuuk, capital da ilha, no sábado (17), acenando com cartazes como “Ianque, vá para casa” e “A Groenlândia já é ótima”.

Um manifestante, que não quis se identificar, disse: “Não aceitamos esse tipo de agressão”, referindo-se às ameaças de Trump de tomar a Groenlândia.

A postura frequente de Trump em relação à Groenlândia atinge diretamente o cerne da política do território, que há muito tempo é moldada pelo legado colonial da Dinamarca.

A Groenlândia foi incorporada à Dinamarca em 1953, em meio a uma onda de descolonização que varreu o mundo após a Segunda Guerra Mundial, e recebeu autonomia interna em 1979. Em 2009, conquistou autogoverno, mas suas políticas externa, de segurança, defesa e monetária ainda são controladas pela Dinamarca.

Os políticos da Groenlândia prometeram tomar medidas em direção à independência, mas não apresentaram um cronograma concreto. Embora nem todos os groenlandeses queiram se separar da Dinamarca, poucos desejam trocar a liderança dinamarquesa pela americana.

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, chamou a retórica dos Estados Unidos de “completamente inaceitável.”

“Quando o presidente dos Estados Unidos fala que precisa da Groenlândia e nos liga à Venezuela e à intervenção militar, isso não é apenas errado, é desrespeitoso”, disse em um comunicado.

As pessoas na Groenlândia reagiram reafirmando sua identidade nacional, por exemplo, postando a bandeira groenlandesa nas redes sociais, disse o cineasta groenlandês Inuk Silis Høegh à CNN.

“Isso incomoda muitas pessoas, e grande parte disso se deve à sensação de falta de respeito vinda da administração dos EUA, que age acima de nós e tenta nos ‘comprar'”, completou

Na segunda (19), o ministro da Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, disse que essa é uma linha que não pode ser cruzada.

“É muito, muito importante que todos nós que acreditamos no direito internacional nos pronunciemos, para mostrar ao presidente dos Estados Unidos Donald Trump que não se pode ir mais longe neste caminho. Então, esqueça. Vivemos em 2026, você pode negociar entre pessoas, mas não pode negociar com pessoas e essa regra permanece. Esqueça esse caminho”, afirmou Rasmussen, e completou: “Você não pode cruzar esta linha”.

Ainda assim, para uma minoria de groenlandeses, como Kuno Fencker, membro do parlamento pelo partido de oposição mais pró-EUA, alguns comentários de Trump foram recebidos de forma relativamente positiva.

“Se ele diz que a Groenlândia tem o direito à autodeterminação ou que poderia se unir aos Estados Unidos, é uma grande oferta do presidente dos Estados Unidos”, disse Fencker à CNN.

 

*Com informações da Reuters



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/a-disputa-pelo-controle-da-groenlandia-pode-virar-conflito-entenda/

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