O uso de até R$ 500 milhões do FGO (Fundo Garantidor de Operações) para operações do Pronaf deve funcionar como instrumento para sustentar a oferta de crédito oficial em um ambiente de maior inadimplência e endurecimento das garantias no campo, segundo fontes ouvidas pela CNN envolvidas na elaboração do Plano Safra.
A autorização reflete um diagnóstico estruturado da equipe econômica: o principal entrave hoje não está no volume de recursos ou nas taxas de juros, mas na deterioração das garantias no campo e na crescente seletividade dos bancos ao avaliar risco.
Dados do BC (Banco Central) indicam que a inadimplência nas linhas de crédito rural atingiu 3,31% em dezembro, e que, somadas as operações em atraso, cerca de 6% da carteira segue nessa condição — o equivalente a cerca de R$ 45 bilhões de um total de R$ 816 bilhões.
Esse aumento de risco, impulsionado por recuperações judiciais e eventos climáticos recentes, têm levado os bancos a endurecer critérios de garantia, como a exigência de alienação fiduciária, reduzindo o acesso ao crédito tradicional, segundo os técnicos ouvidos pela reportagem.
Nesse contexto, o FGO não é apenas um reforço de curto prazo, mas um mecanismo de mitigação de risco capaz de preservar a oferta de crédito oficial em um ambiente de seletividade maior nos balanços dos bancos, sem demandar aportes adicionais diretos do Tesouro.
Paralelamente, uma evolução de mercado que reforça a necessidade de instrumentos como o FGO. Segundo o Boletim de Finanças Privadas do Agro divulgado pelo Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), o estoque de títulos privados no setor somou R$ 1,36 trilhão em janeiro de 2026 — uma base de financiamento que vem ganhando cada vez mais peso frente ao crédito rural tradicional.
A Cédula de Produto Rural (CPR) atingiu R$ 560,26 bilhões, alta de 17% em relação a janeiro de 2025; a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) chegou a R$ 589,79 bilhões, avanço de 11%; e o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) somou R$ 177,87 bilhões, crescimento de 16% no mesmo período.
Os elaboradores do Plano Safra interpretam esse crescimento como parte de uma migração parcial do financiamento do setor para o mercado de capitais e estruturas privadas, principalmente em momentos em que o crédito oficial enfrenta maior restrição por risco e garantias.
A expansão dessas fontes reforça, no diagnóstico interno, a necessidade de instrumentos públicos de mitigação de risco, como o próprio FGO, para manter o crédito rural no radar de oferta das instituições financeiras.
O projeto 2213/25 já havia sido tramitado no Senado e foi aprovado na Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (26). Agora segue para sanção presidencial antes de ter efeito.
A proposta — de autoria do líder do governo — prevê que os recursos administrados pelo Banco do Brasil poderão garantir parte das operações da agricultura familiar no âmbito do crédito rural.
