Resumo:
A cientista política e professora da UFPR, Graziella Testa, avaliou o impacto político do escândalo envolvendo Jaques Wagner, alvo da 9ª fase da operação Compliance Zero, sobre o eleitorado brasileiro. Em entrevista ao Hora H, ela destacou que os desdobramentos do caso recaem, sobretudo, sobre a parcela de eleitores ainda disposta a mudar o voto antes das próximas eleições presidenciais.
Segundo Testa, o cenário é complexo por se tratar de um período pré-eleitoral, o que torna mais difícil garantir que o eleitor tenha acesso a todas as informações necessárias para uma decisão consciente.
“O que importa é a história que vai se contar, e é isso que vai impactar na decisão do eleitor”, afirmou a especialista.
Eleitorado fiel e indecisos
Graziella Testa fez uma distinção importante entre os eleitores já comprometidos com um candidato e aqueles ainda em aberto.
Para ela, o debate em torno do escândalo não deve alterar a intenção de voto de quem já decidiu apoiar Lula ou Flávio Bolsonaro.
“A questão é como isso vai reverberar naquela pequena fatia que está disposta a mudar seu voto, que quer fazer uma decisão informada e adequada para o país”, disse.
A analista também ressaltou que o impacto do caso pode variar conforme a região do país.
No caso de Jaques Wagner, que é muito próximo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mas não é o próprio presidente, a relação pode ser percebida de forma diferente dependendo do eleitorado local.
“Se você conversar com o eleitor da Bahia, provavelmente ele vai falar que Jaques é Lula, mas se você conversar com o eleitor aqui no Paraná, essa relação não é tão direta”, explicou.
Proximidade com o Planalto e nível de envolvimento
Testa destacou que o nível de proximidade de cada figura política com o escândalo é um fator relevante para a avaliação do eleitor.
No caso de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ela apontou que as questões levantadas têm relação mais direta com a disputa pela presidência, incluindo o financiamento de um filme.
Já no caso de Jaques Wagner, a ligação é com alguém próximo ao presidente, mas que não é o próprio Lula. “A gente ainda não sabe até onde vai, quem mais vai atingir”, ponderou.
Corrupção, democracia e o papel do empresariado
A cientista política ampliou o debate ao mencionar que escândalos dessa natureza não envolvem apenas a classe política, mas também o empresariado.
Ela defendeu que é necessário discutir as diferentes esferas da sociedade que estimulam uma cultura de trocas ilícitas.
“A gente tem que conversar sobre a corrupção no empresariado e sobre essas diferentes esferas da sociedade que estimulam essa cultura dessas trocas que não fazem nenhum sentido para quem quer construir um país”, afirmou.
Para Testa, esse processo acaba descredibilizando a política, a democracia e o processo decisório como um todo, estimulando antagonismos que prejudicam a formulação de políticas públicas.
Ela defendeu que a saída passa por um compromisso público e mútuo entre as instituições, citando como exemplo a discussão em torno de um Código de Ética para o STF (Supremo Tribunal Federal), tema que, segundo ela, surgiu há alguns meses e depois deixou de ser debatido.
“A gente precisa de um compromisso público e mútuo para chegar nisso”, concluiu.
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