Apesar de tarifaço, setor automotivo ainda vê oportunidades nos EUA

Resumo:

A Toyota anunciou na semana passada que faria algo que outras montadoras tem relutado em fazer: transferir parte da produção do México para os Estados Unidos.

A montadora japonesa passará a fabricar metade de suas picapes médias Tacoma — o modelo mais vendido da companhia — em uma fábrica ampliada em San Antonio, onde já produz a picape de porte grande Tundra e o SUV Sequoia. A empresa também continuará fabricando a Tacoma no México.

O presidente Donald Trump celebrou a mudança para solo americano, classificando-a como “algo muito importante” e uma prova de que “as tarifas estão funcionando”.

A Toyota não apontou a política tarifária como o fator determinante para a decisão.

“Embora sejamos afetados pela evolução das políticas comerciais, nossos investimentos são decisões de longo prazo — abrangendo várias décadas — baseadas em objetivos estratégicos mais amplos”, declarou a empresa à CNN.

Além disso, mais de um ano após o governo Trump anunciar tarifas abrangentes sobre o setor automotivo para incentivar a construção de novas fábricas americanas, a iniciativa da Toyota representa a exceção, e não a regra.

Transferir a produção para os EUA é difícil

Poucas montadoras anunciaram planos de transferir a produção para os Estados Unidos. A maioria prefere pagar tarifas a gastar bilhões na construção de novas instalações — e as linhas de produção que estão indo para os EUA estão sendo alocadas em fábricas já existentes.

46% dos carros comprados por consumidores dos EUA no ano passado eram importados, segundo a Mobility Global — uma queda leve em relação aos 47,7% registrados em 2024. Parte dessa redução deveu-se ao fato de as montadoras terem reduzido as vendas de veículos importados de menor preço, como o Nissan Versa.

No entanto, há custos elevados e muitas incertezas para que as montadoras realizem mudanças abrangentes nas estruturas das fábricas.

“É um compromisso enorme (construir uma fábrica), e fazer isso por impulso beiraria a loucura”, disse Ivan Drury, diretor de insights do site de compra de automóveis Edmunds. “Portanto, a atitude mais segura é não fazer nada. Seguir em frente, mesmo com esse aumento de custos (tarifários)”, continuou.

Além disso, uma das formas de as montadoras manterem os custos baixos está sob ameaça: o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), o tratado comercial firmado durante o primeiro mandato de Trump.

Esse acordo está agora sujeito a renegociação, e Trump sugeriu, no mês passado, que desistiria dele caso não houvesse mudanças substanciais que beneficiassem as empresas americanas. Isso assusta as montadoras, que passaram a depender da livre circulação de peças pelas fronteiras dos EUA com o Canadá e o México.

“Pedimos uma solução rápida e duradoura que garanta condições equitativas de concorrência e proporcione a segurança de longo prazo necessária para investimentos automotivos de capital intensivo”, afirmou a American Automakers Policy Council, associação que representa a General Motors, a Ford e a Stellantis.

As tarifas estão reduzindo os lucros. A Toyota pagou US$ 8,4 bilhões em taxas alfandegárias no ano fiscal mais recente, o que fez com que os resultados na América do Norte passassem de lucro para prejuízo. A General Motors pagou US$ 3,1 bilhões em tarifas em 2025, e a Ford pagou US$ 1 bilhão.

Isso não quer dizer que as tarifas tenham sido totalmente ineficazes em incentivar as empresas a trazer a produção de volta para os EUA. Além da Toyota Tacoma, a General Motors anunciou no ano passado que transferiria a montagem de dois SUVs que eram produzidos no México. A empresa também deixará de importar SUV Buick da China e fabricará um modelo substituto nos EUA.

No entanto, esses veículos serão produzidos em uma fábrica já existente no Kansas e em outra no Tennessee. Essas instalações tinham capacidade ociosa depois que a GM reduziu os ​​investimentos na produção de veículos elétricos, após Trump e os republicanos no Congresso terem encerrado o apoio governamental a esse tipo de veículo.

Para a Toyota, existem também razões comerciais, além da política tarifária, para transferir a produção para San Antonio, afirmou Patrick Anderson, economista de Michigan e especialista no setor automotivo.

“A Toyota tem obtido grande sucesso na expansão de negócios de picapes nos Estados Unidos, e a unidade de produção em San Antonio já é o pilar dessa operação no país”, destacou ele. “Portanto, faz todo o sentido, do ponto de vista empresarial, consolidar as operações existentes”.

E, mesmo com tarifas tão elevadas, não faz sentido para as montadoras transferir a produção com base em políticas comerciais que podem mudar muito mais rápido do que o tempo necessário para construir uma fábrica.

Especialistas afirmam que as montadoras levariam anos e gastariam bilhões para construir novas fábricas nos EUA — ou ampliar as existentes — em quantidade suficiente para substituir os veículos importados, especialmente considerando que os sucessores de Trump podem reverter as políticas com a mesma facilidade. Os custos de mão de obra nos EUA também são mais altos do que no México e em alguns outros países.

A demanda também está aquecida — o volume total de vendas de veículos cresceu 2% no ano passado, mesmo com os preços dos carros em níveis recordes —, o que incentiva as montadoras a manter o fluxo de importações.


A notícia acima foi acompanhada por nossa equipe para trazer os principais fatos e informações relevantes ao leitor.

Continue acompanhando o Noticiando para atualizações sobre este assunto.

Apesar de tarifaço, setor automotivo ainda vê oportunidades nos EUA