Dirigir um veículo exige atenção constante não apenas ao trânsito, mas ao comportamento do próprio carro. Entre todos os sistemas de segurança de um automóvel, o de frenagem é, sem dúvida, o mais crítico.
No entanto, é também um dos que mais sofre com a procrastinação dos motoristas. Pequenos ruídos, uma leve trepidação ou uma mudança sutil na altura do pedal são frequentemente ignorados até que se transformem em uma emergência. Para especialistas, o maior erro não é técnico, mas comportamental.
De acordo com Nicole Ronzani, especialista em mecânica, a falha mais frequente entre os condutores é a falta de ação imediata. “O maior perigo é não fazer nada quando percebem que algo está fora do normal, o famoso deixar para resolver depois. Essa demora em procurar assistência técnica pode esconder problemas que vão desde o desgaste natural de componentes até vazamentos perigosos no sistema hidráulico”, explica.
O pedal “borrachudo” e as falhas hidráulicas
Um dos sintomas que mais gera estranheza nos motoristas é quando o freio perde aquela sensação de firmeza e passa a ter um comportamento elástico, o que é conhecido como pedal “borrachudo”. Nicole explica que essa sensação ocorre quando o sistema freia, mas não oferece a resposta tátil esperada pelo pé do condutor. Segundo a especialista, as causas são variadas e exigem investigação minuciosa.
“Pedal ‘borrachudo’ pode ser algumas coisas diferentes. Qualidade e material das pastilhas, assentamento no disco, pode ser ar ou vazamento no sistema hidráulico, entupimento de mangotes, pastilhas e discos muito gastos ou falta de manutenção”, diz a especialista. Quando o ar entra no sistema ou há uma perda de pressão, a eficiência da frenagem cai drasticamente, aumentando o tempo necessário para o veículo parar totalmente em uma situação de risco.
Por que você nunca deve apenas completar o fluido de freio
Ainda segundo a especialista, um dos maiores mitos da manutenção automotiva é a ideia de que o reservatório de freio deve ser completado como se fosse o nível de óleo ou a água do radiador. Na verdade, a baixa no nível do fluido de freio é um indicador de diagnóstico importante e nunca deve ser ignorada ou simplesmente “mascarada” com a adição de mais líquido.
Nicole alerta para o perigo dessa prática comum. “Fluido de freio não se completa, se troca. O fluido abaixa conforme o desgaste das pastilhas; se ele chegar no mínimo é porque provavelmente as pastilhas chegaram ao fim”, explica.
Ela ainda complementa que, caso as pastilhas estejam em bom estado e o nível continue caindo, o diagnóstico é mais grave: “Se as pastilhas estão boas e o fluido está baixando é porque ele está vazando por algum lugar, mesmo que não seja visível ou ainda imperceptível no pedal”.
A validade invisível: o perigo do fluido contaminado
Diferente de outras partes do carro que dão sinais visuais óbvios, o fluido de freio sofre uma degradação química que o olho humano não percebe facilmente. Ele possui uma propriedade chamada higroscopia, o que significa que ele absorve a umidade do ar com o passar do tempo. Essa água misturada ao fluido reduz o seu ponto de ebulição, o que pode causar o colapso total do freio em descidas de serra ou frenagens bruscas consecutivas.
“O fluido velho pode causar entupimentos, resposta lenta e problemas no ABS”, afirma Nicole. Sobre a periodicidade ideal para a manutenção, ela recomenda rigor:
“A verificação deve ser feita anualmente e a recomendação dos fabricantes é que se troque a cada 2 anos”. No caso de motocicletas, a atenção deve ser ainda maior. “Em motos se peca pelo exagero e recomendamos a sangria 1 vez ao ano, mesmo sendo o mesmo fluido”, orienta. Rodar com o produto vencido pode fazer com que o freio “ferva” em situações de alto aquecimento, resultando na perda total da capacidade de parada.
Alertas auditivos e a regra da manutenção preventiva
O carro costuma dar sinais ao motorista antes de uma falha completa. O sistema de freio utiliza, inclusive, dispositivos físicos para garantir que o aviso seja ouvido.
Muitas pastilhas modernas contam com um pequeno componente metálico que, ao atingir o limite de desgaste, passa a encostar no disco de propósito. “O alerta auditivo é importante. Se estiver fazendo barulho procure um mecânico para verificar; as pastilhas muitas vezes têm um ferrinho de alerta que arranha o disco emitindo um ruído para avisar que ela está chegando ao fim”, diz.
Caso o motorista perceba qualquer ruído, trepidação ou aumento na distância necessária para parar, a recomendação é de cautela máxima até chegar à oficina. Nicole orienta que o condutor deve “andar com cautela, velocidade reduzida, não pegar serras ou estradas sem verificar todo o sistema antes”.
A prevenção, segundo ela, continua sendo o investimento mais barato e seguro: “Manutenção preventiva é a melhor forma de se prevenir de uma emergência. Fazer a troca do fluido, sangria e limpeza do sistema é fundamental para o bom funcionamento e a segurança do veículo”.
O fator pneu: o parceiro indispensável do freio
Por fim, Nicole traz uma reflexão importante sobre o conjunto do veículo. De nada adianta investir no melhor fluido de freio e em pastilhas de cerâmica se o contato do carro com o solo estiver comprometido. O sistema de freio para a roda, mas quem para o carro no asfalto é o pneu. “Não adianta ter um sistema de freio impecável se os pneus não estão bons. O melhor sistema de freio do mundo não é capaz de parar um veículo com pneus carecas”, conclui.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/auto/freio-do-carro-sinais-de-problema-que-voce-nao-deve-ignorar/
